sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

le desert



ao som de emilie simon

ela atravessaria o deserto por ele, disse numa noite em que algumas taças de vinho a deixaram tonta. ele abandonaria a esposa por ela, disse depois de ter fumado unzim. ela pintaria o céu de vermelho, disse depois de fazerem amor à meia luz. ele enfrentaria o sogro-diretor da empresa, disse depois daquela noite no motel. ela não viveria mais sem ele, disse depois que os espasmos passaram. ele lhe ligaria assim que as coisas se acalmassem, disse depois do banho. ela ficou com o deserto, com o céu e sem a vida. ele ficou com a esposa, com o emprego e sem seu número de telefone.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

cito:

[...] Então, ou antes ou depois, não lembraria, era tanto tempo e tanta história e muita estrada, o outro garoto perguntou se duas pessoas juntas não poderiam rodar assim para sempre juntas e quando os outros olhassem com raiva porque rodavam assim, eles os veriam de um outro jeito, daquele lugar para onde teria ido a cabeça, um pouco de cima, de longe, de fora, porque não seriam como eles, veriam juntos, os outros não os compreenderiam nunca, porque estavam misturados com o céu e a terra, talvez não os perdoassem.


[Caio Fernando Abreu, Pela noite, In: ABREU, Caio F. Triângulo das Águas. São Paulo: Agir, 2008, p. 196]

Cinzas

a cinza das horas
a cinza dos cigarros
a cinza das sobras

o que sobra são cinzas
que o vento carrega levemente
deposita nos escombros
de terrenos baldios

os vadios vira-luas
cinzentamente
atravessam as ruas
recebendo os respingos das cinzas