domingo, 8 de novembro de 2009


[foto de Paulo Botafogo]

Leminkiando pelas ruas de São Paulo

Os dias têm sido complicados e no vai-e-vem deles mal consigo pensar em algumas palavras para postar...
Já que não as tenho vou roubar essas aqui do Polaco-loko Paulo Leminski.
A exposição sobre ele no Itaú Cultural valeu o lapso cleptomaníaco.

"Essa vida, de eremita
é, às vezes, bem vazia.
às vezes, tem visita.
às vezes, apenas esfria."
[p.l.]

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Curruíra

o que há que dói
que corrói
como a curruíra
piando e amortecendo
o dia indo no vão da dor
o amor como a curruíra
do vampiro
corvo ou curruíra?
curruíra.
não há canto de dor maior.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

cito Borges:

"Quando escrevo alguma coisa, tenho a sensação de que isso preexiste. Parto de um princípio geral; conheço mais ou menos o começo e o fim; depois é que vou descobrindo as partes intermediárias; mas nem assim tenho a sensação de que as invento, de que elas necessitam do meu arbítrio; as coisas já se encontram ali. Mas estão ali escondidas e meu dever de poeta é descobri-las"

[Borges, Jorge Luís. Sete noites. São Paulo: Max Limonad, 1983, p.164]

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Para elas, pelo samba, pela folia!

Carnaval. Elas estão lá, as metidas, provavelmente uma cervejinha gelada para antecipar o trajeto até o Sambódromo. Elas estão lá, as putinhas, provavelmente os ingressos na mão delicadamente dispostos na carteira miúda [ligue não, acabei de ler alguns contos de Miguel Torga e o português português está na ponta da língua, opá!]. Elas estão lá, as danadinhas, provavelmente imaginando a "pito" que irão me fazer depois de lavarem a alma de samba. Elas estão lá, as praguinhas, provavelmente com o coração pulsando, a febre batendo pelo que há de vir. Elas estão lá...estão lá...lá.
Aqui eu deposito minha meia inveja, mais um gole de minha meia cerveja e saúdo-as por sambarem, por mim, a noite inteirinha. E ai se não o fizerem.

Pierrot, August Macke, 1923


Carnaval

Carnaval?
Roupas no varal.
Formigas no quintal.
Requintes de vagal.
Mas que tal...
A solidão é o mal,
Para o qual
Remédio não há sinal.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

faire cattleya



Enquanto a penetrava, lembrou da flor. Depositou um pouco do seu pólen. Não vingou. “Ainda bem”, pensou, “não gastarei com adubo”. Ao sair, a flor se abriu. Inteira, úmida e sedenta.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

[Marcelino Freire, eraodito]

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

le desert



ao som de emilie simon

ela atravessaria o deserto por ele, disse numa noite em que algumas taças de vinho a deixaram tonta. ele abandonaria a esposa por ela, disse depois de ter fumado unzim. ela pintaria o céu de vermelho, disse depois de fazerem amor à meia luz. ele enfrentaria o sogro-diretor da empresa, disse depois daquela noite no motel. ela não viveria mais sem ele, disse depois que os espasmos passaram. ele lhe ligaria assim que as coisas se acalmassem, disse depois do banho. ela ficou com o deserto, com o céu e sem a vida. ele ficou com a esposa, com o emprego e sem seu número de telefone.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

cito:

[...] Então, ou antes ou depois, não lembraria, era tanto tempo e tanta história e muita estrada, o outro garoto perguntou se duas pessoas juntas não poderiam rodar assim para sempre juntas e quando os outros olhassem com raiva porque rodavam assim, eles os veriam de um outro jeito, daquele lugar para onde teria ido a cabeça, um pouco de cima, de longe, de fora, porque não seriam como eles, veriam juntos, os outros não os compreenderiam nunca, porque estavam misturados com o céu e a terra, talvez não os perdoassem.


[Caio Fernando Abreu, Pela noite, In: ABREU, Caio F. Triângulo das Águas. São Paulo: Agir, 2008, p. 196]

Cinzas

a cinza das horas
a cinza dos cigarros
a cinza das sobras

o que sobra são cinzas
que o vento carrega levemente
deposita nos escombros
de terrenos baldios

os vadios vira-luas
cinzentamente
atravessam as ruas
recebendo os respingos das cinzas